RECÉM NASCIDO
Que bom é a vida,
Nasci agora!
Todos me querem,
Todos me adoram.
Sou feio e me contemplam,
Ainda não falo
E me interrogam,
Apenas choro...
Analfabeto, careca
E desdentado;
Chorão e egoísta,
Mal acostumado.
Dito minhas regras,
Choro se contrariado,
Só dou uma trégua
Se bem alimentado.
Sou egoísta e centralizador,
Manipulo a atenção,
Não aceito a dor,
Sou mesmo um chorão.
Sou amado,
Esperado com clamor,
Fui rotulado
Como o fruto do amor.
Não freqüento sanitário,
Faço onde quero,
Não tenho horário,
Exijo e não espero.
Sou o dono da casa,
Não tenho rival,
Faço o que eu quero,
Minha tolerância é zero!
Sei que vou crescer
E perder esse trono,
Mas vou me prover,
Enquanto sou o dono.
Serei impaciente,
O dono da verdade,
Quando adolescente,
Após a pulberdade.
O tempo de acerto,
Imposição da vontade,
A procura de um rumo,
Na sonhada faculdade.
Escolher uma profissão,
Que seja do meu agrado,
Ter uma grande paixão,
E ter um
futuro consagrado,
Se pudesse no momento,
Tomaria uma decisão,
Ficaria como estou,
No monopólio da atenção.
José Maurílio Boaventura
Outubro de 2003